Percepções sobre o Congresso de Tradutores da Abrates 2010 – parte II

Por Pricila Reis Franz em 29. Mar, 2010 | Tradução | 15 Comments on Percepções sobre o Congresso de Tradutores da Abrates 2010 – parte II

Continuando as impressões do primeiro dia do Congresso da Abrates, registro aqui a palestra de abertura A Babel Global: Crise ou Loucura, com o Keynote Speaker João Roque Dias, um engenheiro/tradutor português que conhecia através de seu site e que sempre pensei que fosse alguém muito sério e sisudo. Na realidade é um portuga muito bem-humorado e cativante! Entre as brincadeiras durante a palestra, um agradecimento ao William Carrier – inventor do ar condicionado -, uma breve história da Tradução contada em seis slides (cujo o início se deu por falta de uma licença numa construção… Babel, é claro!), e a promessa de “sexo em escala industrial no meio da palestra”-  nada mais que números demográficos, hehehe.

Pois em meio a tantas brincadeiras o palestrante conseguiu trabalhar muito bem o tema do congresso (A crise global e os decifradores de Babel), que pensei estar fora de sintonia, pois ao menos pra mim (para outros colegas com os quais tenho contato) não houve crise, pelo contrário, há cada vez mais procura (inclusive tenho observado que o Brasil está cada vez mais em evidência, ganhando destaque até em filmes e séries americanas, um sinal de que estão interessados na gente!). Mas muito se pode falar sobre esse assunto e abaixo seguem algumas anotações que fiz de sua palestra:

  • Vendemos serviços, não mercadorias. A diferença entre mercadoria e serviços é que a mercadoria pode ser armazenada e os serviços são prestados na hora. O palestrante comparou o tradutor com o cabeleireiro (serviço, individual, personalizado, único), com a diferença de que este realiza o serviço no próprio corpo do cliente! Para se calcular o preço da mercadoria, basta somar os custos da produção (investigação e desenvolvimento; engenharia; materiais; produção; montagem; garantia de qualidade; peças de refugo; embalagem; marketing e distribuição). Já no caso da tradução, a pergunta: “quanto devo cobrar pela minha tradução?”, tão habitual em nosso meio, está errada. O correto seria: “quanto me custa fazer ESTE serviço para ESTE cliente?” E como fazer para se chegar a esse valor? Primeiro fator: tempo. Quanto tempo disponível você tem, quanto tempo levará para realizar a tradução. Segundo: dinheiro. Quanto dinheiro você gasta para pagar as coisas necessárias para fazer o trabalho. Porque tradutor gasta dinheiro para trabalhar.
  • A loucura de ser tradutor: o João citou algumas situações pelas quais passamos: traduzir de tudo (sapatos, moldes e aviões); depressa, muito depressa; com terminologia inventada ontem; sem erros e com seguro contra erros; com garantia de qualidade; normas; o cliente está à  espera; tudo isso recebendo 0,03 centavos por palavra! Além disso, inventamos coisas como: MT (memória de tradução); educação do cliente; formação contínua; certificação de tradutores; normas de serviços linguísticos; desenvolvimento profissional; tudo para continuar a receber estes mesmos centavos! Essa é a loucura da nossa profissão!
Triângulo de ouro da tradução

Triângulo de ouro da tradução

  • Ainda na questão da loucura, citou algumas “modas“: antes os Cursos de Tradução eram ligados ao de Secretariado; depois, cursos de tradução apropriados pelas Faculdade de Letras (muitas vezes SEM passar de Cursos de Letras); Cursos LEA / LA (moda francesa) – línguas estrangeiras aplicadas; e, finalmente: a tradução  não existe, o que existe é a comunicação. A tradução é apenas um capítulo da comunicação. Além disso, tradução técnica agora é tudo: literatura, economia, medicina, direito, jornalismo, tradução de “coisas de engenheiros”.
  • Apresentação dos tradutores: o palestrante citou alguns erros comuns: “tenho mestrado em tradução” e “I have a passion for languages” (frase que ecoou por todos os dias do congresso!), entre outros. É importante que o tradutor apresente-se falando sobre sua experiência e em quais áreas é especialista; se domina sua língua materna (sim, porque muitas vezes o tradutor não consegue se expressar corretamente em sua própria língua!). Perguntas essenciais que o cliente deveria fazer sobre um tradutor: sabe escrever bem na língua materna? Sabe pontuar e escrever sem erros? Como conhece o assunto da língua de partida? Sugestão para os tradutores: repetir estas perguntas para seus clientes.
  • Normas de tradução: não servem pra nada. Devem ser lidas uma só vez (“para não parecermos estúpidos nas conferências…”) e jogadas rapidamente no lixo.
  • Mercado de trabalho. Estimativa da UE: Portugal precisa de 70 a 80 tradutores por ano; a lista de correio de uma determinada agência  portuguesa tem 1500 tradutores; 85 %  dos novos tradutores que entra no mercado salta fora no primeiro ano; dos 15 % restantes, a quase totalidade sai no segundo ano.Sobre leilão de serviços, o palestrante sugeriu ler sobre teoria dos jogos e não se meter nesse tipo de negócio, porque não é brincadeira.
  • Em uma crítica às associações de tradutores, João afirmou que temos uma tendência natural em andar em cardumes. Por isso, ser membro de uma associação é “fino”, dá (parece dar…) credibilidade e reputação, mas o que ganhamos mesmo com isso? Sugestão: “levar o cardume a passear” – as associações devem estar em feiras industriais, feiras dos livros, congressos profissionais.
  • Devemos (per)seguir o dinheiro. Por isso, com relação ao futuro, sua sugestão de áreas que devem crescer cada vez mais nos próximos anos são: ciência, tecnologia e inovação (investigação e desenvolvimento). Os maiores países investidores em investigação e desenvolvimento são Israel, Japão, China e Eua, respectivamente. O campo que devemos prestar atenção (e estudar!): energias renováveis, energia fóssil, energia nuclear, outras energias – ciências da energia.
  • Indicadores fundamentais p/tradutores: frequência de novos trabalhos (cálculo: 365 dias / n. de trabalhos = frequência de novos trabalhos). É a probabilidade de receber um novo trabalho quando estamos ocupados. Dá uma estimativa de perda de trabalho quando se está ocupado.
Indicadores fundamentais para tradutores

Indicadores fundamentais para tradutores

Essas foram as minhas impressões/anotações sobre o primeiro dia. Posso ter esquecido algo, mas o pessoal pode complementar nos comentários.

Apenas um post scriptum sobre diferenças culturais registradas na janta Pós-Congresso: na pizzaria, cariocas e paulistas espantados e escandalizados porque gaúcho come pizza, pastel e xis de coração de galinha! Não sabem o que é bom! 😀

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15 Comentários

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Pricila Reis Franz, Pricila Reis Franz and Pricila Reis Franz, Ernesto Diniz . Ernesto Diniz  said: Percepções sobre o Congresso de Tradutores da @_abrates: http://bit.ly/caTI2t (I) e http://bit.ly/az1XKo (II) (via @pricilafranz) #traducao […]

  2. Cara Pricila: eu tinha ficado com a ideia de que a minha palestra de abertura do Congresso da ABRATES tinha tido alguma atenção por parte dos participantes. Mas com esta profundidade, meu Deus? Descrição tim-tim por tim-tim, com fotos e tudo? Sinto-me verdadeiramente honrado pela atenção que me dispensou. Muito obrigado.

  3. Dayse Batista says:

    Pri!

    Para mim, gaúcha, que não pude comparecer ao congresso (por excesso de trabalho) e até no jantar cheguei atrasada, tu deste um presente gigantesco, com este resumo que não é resumo 😀
    Francamente, é por isso que gosto tanto de ti: tu és ligadona em tudo o que importa.
    Obrigada, a ti e ao João, com quem não tive, infelizmente, a chance de conversar (embora estivesse pertinho de mim na janta).
    Como lamento não ter ido. Mas tu aliviaste o pesar.

    Beijos

    • pricila says:

      Dayse,

      Que bom que você gostou. Lastimo mesmo é não poder ter conversado mais com você e com sua linda filha! Mas espero que a gente se encontre logo, logo.

  4. Mairo Vegara says:

    Ótimo resumo! Leio o blog há pouco tempo, um dos melhores na área. Parabéns!

  5. Priscila, ótimo resumo. Muito obrigada por ter encarado essa tarefa. Mesmo para quem estava lá, como eu, é de grande utilidade. E para quem perdeu a excelente palestra do João, mais ainda!

    Parabéns, o blog está mesmo muito bom.

    • pricila says:

      Obrigada Bete!

      Mas você participou de outras palestras, bem que podia compartilhar com a gente também, não é?! 😀

  6. Fabio says:

    Legal,Pricila! Obrigado por dividir conosco suas impressões! A palestra do João deve ter sido fantástica mesmo. No caso das normas de tradução, elas são coisa séria em certos países, sim, como na Alemanha, Áustria e Suíça. Tenho clientes (agências de tradução) que são muito exigentes com o cumprimento dos requisitos da tal norma EN-15038 – aliás esses clientes com fascínio por normas são, pelo menos no meu caso, os que costumam pagar melhor.

    Quanto ao melhor posicionamento do site no Google, há muitas estratégias de SEO que podem ser usadas com sucesso por tradutores. Um dos capítulos do meu livro “Fidus interpres: a prática da tradução profissional”, que será lançado no início do mês que vem, tratará desse tema e dará muitas dicas técnicas sobre como manter um bom blog profissional sobre tradução como ferramenta de marketing.

    Fico no aguardo de mais impressões do congresso… Já estou viciado! 🙂

    • pricila says:

      Obrigada pelo seu comentário, Fabio!

      Com relação às normas, a impressão que eu tenho é que isso é algo mais relacionado ao comércio europeu mesmo. Pelo menos aqui no Brasil não senti essa preocupação. O João foi polêmico não apenas nesse assunto. Outros se seguirão, você vai ver! 😀

      Sobre o teu livro, estou morrendo de curiosidade de lê-lo. Não lembro se você já colocou no seu blog, mas se não o fez, poderia colocar o índice, os tópicos que serão abordados na obra.

      Espero conseguir escrever mais uns posts sobre o congresso nesse feriado. Tomara que dê tempo!

  7. Hilton says:

    Seu resumo ilustrado merece outro nome, é uma palestra para quem não foi, como eu. O João realmente mereceu, os assuntos abordados foram muito interessantes e pertinentes ao nosso dia a dia. Obrigado por compartilhar Pricila!

    Hilton
    (Especialmente úteis para mim: seu parágrafo acima: “Finalmente, o palestrante falou sobre a divulgação,..” e o comentário do colega Fábio)

    • pricila says:

      Obrigada, Hilton!

      Realmente a palestra do João foi memorável! Grandes lições em poucas horas. Espero que a Abrates disponibilize logo os PPTs e o áudio das apresentações, assim a gente pode aproveitar ainda mais tudo o que foi discutido lá nesses três dias.

  8. Oi Priscila,

    Você fez um bom resumo da palestra do João Roque, na minha visão abordou todos os itens citados por ele. A palestra realmente foi magnífica. Sai de lá com a satisfação de que valeu a pena cada centavinho que paguei para ir ao congresso. Olha que não foi nada barato! (risos).
    Lendo as suas impressões, lembro das minhas e do meu entusiasmo ao final de cada dia. O Congresso foi mais que uma reciclagem, foi uma injeção de ânimo em doses altíssimas. Agora o próximo será Buenos Aires. Você vai?
    Abraços, Carol

  9. Beatriz says:

    Parabés, Pricila. Que post completo! Adoraria ter ido ao Congresso, quem sabe no próximo.

    Coloquei um link para o seu super relato no meu blog 🙂

    Abraços.

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